Belinda Mandelbaum1, Stephen Frosh2, Aline Rubin3, Artur Rafael Theodoro4

Introdução

A psicanálise surgiu na Europa no final do século XIX, mas desde então tem se disseminado por diversos países, e de modo especialmente fértil na América Latina. Em cada local, desenvolveu características únicas a partir de seu diálogo com culturas específicas, ideologias, condições sociais, políticas e econômicas que encontrou. Isso se mostrou tão verdadeiro no Brasil quanto em outros lugares, e a história da psicanálise brasileira tem sido objeto de algumas pesquisas recentes importantes (Costa, 1989; Mokrejs, 1993; Russo, 2012a, 2012b).

Neste artigo, dirigimos nossa atenção para a “produção” da psicanálise no Brasil, ou seja, para a natureza e a qualidade do trabalho psicanalítico neste país, representado especialmente por suas publicações. Estamos particularmente interessados no trabalho produzido durante a ditadura civil-militar que durou 21 anos, de 1964 a 1985. Isso porque, naquele período, as instituições psicanalíticas cresceram e até mesmo prosperaram (Russo, 2012b), embora a atmosfera de opressão e medo fosse também sentida no interior do movimento psicanalítico (Mandelbaum, Frosh, Rubin e Theodoro, 2017). Uma pergunta que surge é se o autoritarismo do mundo social “exterior” refletiu-se na prática profissional dos psicanalistas, e o quanto isso limitou a criatividade dos mesmos de modo identificável. Em seu ensaio A “geração AI-5” emaio de 68, escrito em 1979, Luciano Martins sustenta que a cultura autoritária no Brasil impediu o pensamento crítico, mas também que a terapia psicanalítica contribuiu para anestesiar o conflito entre indivíduos e sociedade. No material que segue, derivado do projeto de pesquisa que desenvolvemos desde 20135, examinamos as relações entre autoritarismo e produção psicanalítica, especialmente em um contexto no qual as regras autoritárias que governavam a Nação como um todo ressoavam no interior das instituições psicanalíticas (Mandelbaum et al., 2017). No caso brasileiro, essa ressonância contribuiu para marcar as instituições psicanalíticas pelo constrangimento, pela falta de liberdade de pensamento e de expressão, por certa esterilidade e até mesmo por episódios de censura implícita.

Ao longo de nossa pesquisa, realizamos entrevistas com psicanalistas brasileiros que integraram instituições psicanalíticas brasileiras no período ditatorial e com outros que fizeram sua formação no exterior e retornaram ao país durante o período de redemocratização que se iniciou nos anos 1980. Também examinamos publicações em revistas de psicanálise brasileiras, com atenção especial para aquelas em que psicanalistas refletiram sobre as contribuições brasileiras para o campo psicanalítico. Essa produção possui raízes de longa data, no modo como a psicanálise foi recebida no país desde o início a partir de uma relação colonizada com os centros hegemônicos de produção da psicanálise, no Norte. Alguns desses padrões colonizados ainda estão presentes nos modos como a psicanálise é pensada e praticada no Brasil, embora mudanças profundas tenham ocorrido desde os anos 1980 com o processo de democratização do país e a disseminação de grupos psicanalíticos e grupos de estudos “dissidentes” em relação às sociedades filiadas à IPA, especialmente, em círculos acadêmicos.

Origens antropofágicas

Em um congresso realizado na cidade do Rio de Janeiro em 2004, sob o título Identifying markers of Latin American Psychoanalysis: uncertainty, complexity and pluralism (Identificando marcas de psicanálise latino-americana: incertezas, complexidade e pluralismo), o artigo Yes, we have bananas!, apresentado por três psicanalistas paulistanas e, posteriormente, publicado no International Journal of Psychoanalysis (Azevedo, Vannucchi e Sandler, 2005)6, retratou a psicanálise latino-americana não apenas como uma vertente distinta no cenário da psicanálise mundial, mas reivindicando igual participação em relação à psicanálise praticada em outros lugares. De acordo com Azevedo et al. (2005), atribuir “incertezas, complexidade e pluralismo” à psicanálise produzida na América Latina, como era característico de boa parte das discussões sobre o assunto, é um sinal de preconceito que surge de uma relação colonizador-colonizado – daí o título do artigo – referindo-se a um estereótipo sobre o Brasil datado das primeiras décadas do século XX. Segundo os autores, “incertezas, complexidade e pluralismo” são parte de toda a psicanálise, não apenas daquela produzida na América Latina.

No mesmo artigo, as autoras atribuem o fato de a psicanálise produzida em países como o Brasil ser tão pouco conhecida, a relações de poder no ambiente psicanalítico mundial e seu impacto nos critérios de publicação. Além disso, elas apontam as dificuldades com o idioma que especificamente no campo da psicanálise, no qual nuances relacionadas ao significado das palavras são tão importantes, impossibilitam a plena disseminação das atividades desenvolvidas pelos psicanalistas latino-americanos em sua prática clínica. O artigo vai ao encontro de queixas quase sempre acompanhadas de uma certa convicção implícita que poderia ser traduzida em algo como: “se não fosse pela barreira do idioma, o mundo conheceria meu trabalho!”. Essa é uma situação propícia para fomentar fantasias relacionadas ao “romance familiar” de cada analista: “se eu tivesse nascido em outra casa, em outro país, tudo seria diferente…”.

No Brasil, foram os psiquiatras que inicialmente estabeleceram contato com a psicanálise e a introduziram em suas aulas e artigos (Russo, 2012a). O período inicial no país, do final do século XIX à primeira metade do século XX, foi caracterizado por um fluxo migratório considerável partindo da Europa e por uma ruptura com instituições locais tradicionais produzida por processos de modernização, industrialização e urbanização (Valladares de Oliveira, 2012). As novas elites buscaram seus modelos de identificação principalmente na Europa, e tentaram erguer suas identidades nacionais baseando-se nesses modelos. Em um processo de urbanização acelerado, a modernidade se tornou uma espécie de estilo cultural que penetrou o tecido de uma sociedade que não resistiu; ao contrário, consumiu avidamente o que era produzido no Primeiro Mundo, sonhando os sonhos modernos do cinema e da moda. O conflito e as misturas entre colônia e metrópole, entre o nacional e o estrangeiro, entre o regionalismo e o cosmopolitismo, acompanhou a história do país ao longo dos cinco séculos posteriores ao seu “descobrimento”. Nas primeiras décadas do século XX, a imigração europeia criou uma nova base demográfica, enquanto a ideia de periferia persistiu (e ainda persiste) de modo contraditório. A introdução da psicanálise no Brasil seguiu esse ímpeto de modernizar e desenvolver o país, seja no campo da psiquiatria (Russo, 2012a) ou da cultura (Facchinetti, 2003).

No Brasil, os conflitos sociais e culturais que surgiram a partir do encontro de culturas cosmopolitas com tradições locais se tornaram o tema da Semana de Arte Moderna de 1922, um evento que reuniu escritores, poetas e pintores em torno do debate sobre a identidade e a cultura brasileira. No Manifesto antropofágico, escrito em 1928, Oswald de Andrade – quem teve papel chave na Semana de 1922 – articulou uma poderosa mimese: “Tupiornottupi,thatisthequestion.” Em outras palavras, a antropofagia tornou-se o emblema para uma demanda de “engolir” a herança cultural europeia e transformá-la em arte e linguagem tipicamente brasileiras; ser alimentado por tudo o que os estrangeiros trouxeram ao Brasil, sugar todas as suas ideias e uni-las às ideias brasileiras, alcançando assim nossa própria produção cultural.

É curioso e importante para nosso tema notar que, desde o início, a psicanálise foi “engolida” de formas radicalmente opostas pelas elites locais, mas sempre mantendo uma posição central na construção das identidades nacionais brasileiras. Por um lado, a psicanálise ofereceu uma linguagem e os temas para um profundo processo de renovação nas artes e na cultura, partilhado pelas elites intelectuais urbanas. No Manifesto antropofágico7, Oswald de Andrade (1928) menciona Freud ao menos três vezes, incluindo esta afirmação provocativa: “Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama”. Pindorama (em tupi-guarani pindó-ramaou pindó-retama, “terra/lugar/região de palmeiras”) é uma denominação pré-cabralina dada a regiões que posteriormente formariam o Brasil. Ampliando o seu significado é o nome indígena parexcellence desse país sul-americano. Vemos aqui um Freud que denuncia e revela a natureza opressora da realidade social, a quem Oswald de Andrade se une para exaltar a proposta de um mundo sem complexos, sem loucura, sem prostituição e sem pri- sões em Pindorama.

Por outro lado, e em oposição a essa ideia cultural de um retorno às origens, a psicanálise foi apropriada pelas elites locais – especialmente por médicos higienistas e psiquiatras – como um instrumento capaz de oferecer um caminho para aperfeiçoar e melhorar a raça brasileira. Russo mostra que, embora os psicanalistas em geral prefiram se identificar com a face revolucionária e transgressora da psicanálise, suas ideias eram bem aceitas pelo establishment médico e psiquiátrico no projeto de colaborar cientificamente para introduzir o povo brasileiro na civilização ocidental (Russo, 2012a). O padrão peculiar de recepção da psicanálise por médicos brasileiros foi em grande medida moldado pelas obsessões raciais das elites sociais e intelectuais no país. Se durante as primeiras décadas do século XX uma das principais características do mito da identidade do povo brasileiro era a mistura de três raças – branca, negra e indígena –, o que conferiu a ela elementos de um primitivismo instintivo e uma sexualidade exacerbada, para que o proces- so de civilização e modernização continuasse seu curso foi necessário educar o povo, discipliná-lo e extirpá-lo das marcas de sua natureza selvagem. Em História da psiquiatria no Brasil, Jurandir Freire Costa (1980) escreve que é no contexto dessas ideias que a eugenia que caracterizou a psiquiatria nazifascista foi exaltada e apropriada pela psiquiatria brasileira nos anos 1920 e 1930. Facchinetti, afirma que “a partir da década de 1890, especialmente, a representação da mestiçagem como marca identitária local ganhou uma versão cada vez mais pessimista, especialmente por causa da difusão das teorias degeneracionistas” (Facchinetti, 2012, p. 45). Portanto, no início do século XX, principalmente devido ao rápido processo de urbanização que levou a “crescentes níveis de criminalidade, corrupção, doenças e da emergência de um proletariado urbano de ex-escravos e imigrantes, as elites sociais e intelectuais tornaram-se ainda mais pessimistas frente ao problema racial” (Facchinetti, 2012, p. 46). Assim, a psicanálise poderia contribuir com o projeto de aprimorar essa identidade nacional miscigenada, na medida em que oferecesse explicações não biológicas e, nesse sentido, não determinantes para as vicissitudes da sexualidade. A ideia de sublimação, por exemplo, sinalizava a hipótese de que impulsos sexuais e agressivos poderiam encontrar destinos mais nobres e elevados que a mera satisfação em atos, sem mediações culturais ou morais. É nesse sentido que a psicanálise foi apropriada, não apenas por psiquiatras na forma de uma terapia moderna, de uma alternativa à tradicional psiquiatria biologica- mente fundamentada, mas também por pedagogos, como uma ferramenta para a disciplina e para o controle corporal.

Adotado pela Liga Brasileira de Higiene Mental nas décadas de 1920 e 1930, a psicanálise teve participação em um projeto com uma concepção híbrida – tanto darwinista, quanto lamarckista – para o aprimoramento das raças. Ela também participou da construção de uma ideologia racional e científica para explicar o “atraso” do Brasil e suas possibilidades de desenvolvimento. Dessa maneira, a psicanálise ofereceu um discurso “científico” que foi disseminado pela sociedade a respeito de modelos familiares, da educação das crianças e do relacionamento entre os gêneros, o que operou como um poder disciplinador e culpabilizador. Notemos que, embora a psicanálise tenha sido apresentada como uma nova proposta – capaz de lidar com todas essas questões em um contexto de aparente ruptura, com padrões coloniais tradicionais de hierarquia entre os gêneros e gerações – ela apenas alcançou a penetração que teve, já que não rompeu verdadeiramente com esses padrões. Ao contrário, a psicanálise conferiu a eles uma justificação científica, uma espécie de nova roupagem para antigos modos de vida.

Assim, por exemplo, psicanalistas reforçaram por meio do rádio, em jornais e revistas direcionadas ao público feminino, a importância da relação mãe-criança para o desenvolvimento psicológico saudável; sempre mantendo inquestionável o padrão da família de classe média burguesa, com seus tradicionais papéis de masculinidade, feminilidade e infância. No mesmo período em que Donald Winnicott estava transmitindo conselhos para mães na Inglaterra, o psicanalista Durval Marcondes mantinha, com temas que envolviam a psicanálise, uma coluna semanal em um jornal conservador diário de grande circulação chamado Folha da Manhã. Enquanto isso, em outro importante jornal de São Paulo, Marcondes dava conselhos sobre a maneira em que as mulheres deviam se vestir “com bom gosto”, “de modo a agradar os homens” (Marcondes, 1960, p. 48); e Virginia Bicudo – uma das primeiras psicanalistas de São Paulo, e que também trabalhou com Durval Marcondes em um serviço público destinado a crianças – tinha um programa de rádio sobre vida familiar e educação das crianças.

Produções brasileiras

Embora a psicanálise tenha tido um impacto profundo no país desde o início do século XX em áreas tão diversas como a psiquiatria, a saúde mental, a educação, as artes e a cultura de massa, quando entrevistamos psicanalistas brasileiros, em 2016 e 2017, eles nos disseram repetidamente a respeito da ausência de uma produção psicanalítica, especificamente brasileira, que tivesse contribuído de modo significativo para o desenvolvimento da teoria psicanalítica ou a prática clínica. Por exemplo, o psicanalista A comenta:

Durante muito tempo, agora nem tanto, mas entre os anos 1950 e 1970, os analistas praticamente não tinham voz escrita. Tinham as publicações, às vezes há trabalhos muito interessantes, mas muito limitados e acanhados, precários.

O psicanalista B tem a mesma percepção:

Acredito que não havia uma tradição nas sociedades psicanalíticas brasileiras para que se publicassem artigos. Não posso fazer uma análise sociológica disso, mas talvez as pessoas fossem realmente muito narcisistas para se exporem, não havia uma tradição de publicação de artigos.

Diferentes explicações para a ausência de publicações foram dadas por nossos entrevistados. Por exemplo, o psicanalista C relata suas impressões ao chegar ao Brasil após um longo período de formação no exterior durante os anos 1980:

Acredito que era muito pequena a produção. Sociedades [psicanalíticas] eram muito fechadas naquela época, […] eu não tinha uma boa impressão naquele período, uma boa visão da produção brasileira, não sentia que era original, nova, nem bem escrita.

Acredito que, no início, os brasileiros não tinham nenhuma experiência de escrita para revisão por pares pelas revistas científicas, então não havia nenhum tipo de crítica, nenhum tipo de intervenção ou diálogo editorial. Então, os artigos eram […] muito desconexos. Eu estava acostumado a ler a produção inglesa, o International Journal, e a produção francesa que é diferente, mas elas têm uma estrutura. Na produção brasileira, eu não sentia que os textos costumavam ter qualquer estrutura.

Por desconexos eu quero dizer que não era possível ligar um parágrafo ao outro, não havia uma evolução natural das ideias, após ler o artigo não se sabia do que se tratava, qual era a principal tese do autor […] não havia uma revisão por pares.

O psicanalista C está se referindo a sociedades psicanalíticas fechadas, onde o critério de seleção para a publicação em seus periódicos não era a qualidade do texto, sua originalidade ou novidade, mas quem o escreveu. Ou seja, a sociedade psicanalítica seguiu, de acordo com o entrevistado, um tipo de hierarquização social alinhada com a sociedade brasileira em sentido amplo que, por seu turno, define lugares exclusivos, um tipo de “quem é quem” da psicanálise brasileira, incluindo o privilégio de ser publicado, pouco importando a qualidade do texto escrito. É, dessa maneira, que os textos “desconexos, não estruturados” eram produzidos, sem serem submetidos à revisão por pares. Se no que se refere à prática psicanalítica, como relatamos em outra oportunidade (Frosh e Mandelbaum, 2017), as sociedades psicanalíticas oficiais defenderam a “pureza”, a não contaminação da prática clínica pelo mundo exterior, o critério de publicação era, por sua vez, exterior à própria psicanálise. Ao invés de examinar a qualidade do pensamento ou da práti- ca psicanalítica, o critério para publicação “era se alguém era importante ou não”.

Os pontos de vista do psicanalista C a respeito da hierarquização dos psicanalistas e os privilégios decorrentes disso – neste caso, ser publicado a despeito da qualidade do texto, o que por sua vez contribuiria para reforçar o status daqueles que conseguiam ter seus trabalhos publicados – estão relacionados com as observações do psicanalista D sobre a presença de uma forte hierarquia no relacionamento entre analistas e pacientes no Brasil. Além disso, D faz uma conexão explícita entre a hierarquização dos psicanalistas e as condições circundantes de autoritarismo no Brasil durante a ditadura. Ele diz:

Mas acho que no Brasil existe um “a mais”. É como se esse pressuposto de que há uma diferença nas posições do analista e do analisando tivessem sido levadas na tradição psicanalítica brasileira ao exagero e à caricatura. Eu acho que é esse exagero e essa caricatura que é um efeito, seja da tradição política conservadora brasileira, seja do fortalecimento que isso teve nos anos da ditadura militar. […] aqui no Brasil existem invariantes ligadas a essa hierarquia que atravessa, sejam os discursos psicanalíticos da IPA, seja os discursos psicanalíticos lacanianos.

Isto é, de acordo com os psicanalistas C e D e outros que comunicaram percepções similares, as sociedades psicanalíticas brasileiras eram (e, em alguma medida, ainda são) caracterizadas por regimes de formação e relações profissionais fundadas em submissão e falta de liberdade de expressão, e essa situação foi acentuada durante a ditadura que exagerou as tendências à hierarquização já prevalentes na sociedade brasileira (Ribeiro, 1995; Holanda, 2003). Isso poderia ser observado nas relações entre analistas e analisandos, assim como também em seus espaços de ensino e de produção do conhecimento; e ao menos na visão do psicanalista D isso se relaciona com o que ocorreu no contexto social mais amplo durante o mesmo período, o que é confirmado pelo analista E que chegou da Argentina nos anos 1970 e narrou o que encontrou na Sociedade de Psicanálise de São Paulo, filiada à IPA: “Havia esse comportamento britânico fascista em relação aos pacientes, que algumas pessoas tinham. Algumas pessoas na sociedade aparentavam aquele fascismo kleiniano britânico”.

A linguagem enfática empregada pelo entrevistado, em que a referência ocasional aos kleinianos como “fanáticos” (Etchegoyen, 1987) torna-se articulada como “fascismo”, indica a intensidade do sentimento e também uma atitude na direção oposta ao “colonialismo” da escola inglesa de psicanálise, que supostamente exportou atitudes e ideias a serem reproduzidas em outros lugares. Curiosamente, Rocha Barros (1995) fornece uma visão oposta das razões para o uso confuso ou derivado das ideias kleinianas no Brasil, atribuindo este fato ao “consumo” de tais ideias sem a atenção adequada as suas origens e nuances (i.e. antropofagia), mas também afirmando que:

Por meio desse processo, grupos de consumo local tornam-se proprietários de certas ideias psicanalíticas, simplificadas pelo próprio uso ao qual as ideias estão sujeitas. Essas ideias servem assim para institucionalizar e legitimar a dominação desses grupos de consumo local, segregando grande parte da comunidade psicanalítica do acesso a formas mais avançadas e inovadoras de pensamento psicanalítico. Ideias e teorias são susceptíveis de se tornarem simplificações, usadas meramente como técnicas para proclamar a superioridade e, é claro, os setores segregados tendem a ameaçar essas ideias como exóticas e estranhas ao seu ambiente. (p. 838)

O que o autor sugere é que uma certa leitura simplificada de algumas das ideias e práticas de sociedades psicanalíticas estrangeiras foram apropriadas por grupos poderosos no interior de instituições psicanalíticas brasileiras e utilizadas para preservar status ao invés de promover o avanço do conhecimento. Isso por vezes produziu oposição, mas principalmente subserviência e idealização por parte dos grupos excluídos do poder, novamente em detrimento do desenvolvimento de uma psicanálise criativa e crítica.

Outro elemento marcante dentre as características da produção psicanalítica que o psicanalista C encontrou ao chegar ao Brasil foi a ausência de diálogo editorial, o que sugere que os textos eram, de acordo com ele, desconectados de qualquer tipo de diálogo com outros textos ou autores brasileiros. De fato, C nos diz que, quando chegou ao país, as sociedades psicanalíticas brasileiras eram muito mais conectadas com as sociedades europeias do que entre si:

Enorme rivalidade entre sociedades, eu diria, não apenas entre sociedades, mas entre estados. Acredito que a Sociedade de Psicanálise de São Paulo evitava qualquer vínculo com a Sociedade do Rio de Janeiro, e vice-versa. Acredito que éramos mais próximos das sociedades europeias do que da Sociedade de Psicanálise do Rio de Janeiro.

Rocha Barros (1995) nota a predominância do pensamento kleiniano no Brasil (dos anos 1960 aos anos 1980) e comenta: “para algumas Sociedades, Londres (representada quase exclusivamente pelo grupo kleiniano), e também Buenos Aires, tiveram uma influência central no desenvolvimento de nosso pensamento psicanalítico” (p. 837). Do mesmo modo, Marina Massi (2007), em sua tese sobre as publicações dos psicanalistas paulistas na Revista Brasileira de Psicanálise, entre os anos 1960 e 1970, observa que 90% das referências eram a autores estrangeiros, especialmente Freud, Klein, Bion e Hanna Segal. O outro 10% das referências se dirigiam a um grupo de figuras proeminentes da Sociedade de Psicanálise de São Paulo, especial- mente Durval Marcondes, Virginia Bicudo e Luiz Almeida Prado Galvão.8

Essa apreciação é confirmada pela percepção do psicanalista F, tendo retornado ao Brasil vindo da Europa nos anos 1980:

(…) isso eu fiquei impressionado quando cheguei no Brasil, que as pessoas não estudavam juntas. Óbvio que não tem uma escola brasileira […] Tem que ter uma interlocução, eu tenho que estar em discussão com você, você tem que discutir o meu trabalho, eu o teu, tem que ter uma comunidade de trabalho, não tem. Às vezes você apresenta um trabalho na Sociedade, eles vão lá, discutem com você, a discussão é “super” interessante, pertinente. Saem dali, vão fazer um trabalho às vezes próximo, não vem nem um elemento da discussão com você. Vão pegar o Fedida, a B. Joseph, o Roussillon, que agora está na moda, é de Lyon (quando há uma produção brasileira, ela é tão individualizada…). Isto não acontece aqui, laços de trabalho. [Por quê?] Acho que pela pobreza ou pelo próprio narcisismo. E inveja também, tirar do outro e pegar para si. Os olhos estão voltados para fora, para os grandes centros internacionais, basicamente Paris, Londres (relações de idealização, Bion, Lacan, linguagens que ninguém entende). Não tem lugar para pensar junto, para escrever junto.

Ao final dos anos 1970, a falta de uma produção nacional foi percebida pela própria Revista Brasileira de Psicanálise, um órgão oficial das instituições psicanalíticas filiadas à IPA. Por exemplo, o psicanalista Gecel Szterling, então presidente da Sociedade de Psicanálise de São Paulo, publicou um artigo argumentando que:

As ideias novas, os novos descobrimentos não têm trânsito fácil no próprio descobridor, nem entre os psicanalistas aos quais são apresentados: talvez seja este um dos empecilhos para motivar nossos pesquisadores de todas as hortas, para que se sintam dispostos a atentar para suas descobertas e escrever algo a seu respeito. (Szterling, 1976, pp. 24-25).

Além disso, em 1984, o editorial da mesma revista escrito por Ana Maria Azevedo e intitulado A crise expôs a mesma falta de publicações de artigos científicos, o que poderia ter sido causado, de acordo com o texto, por “restrições, temores, objeções particulares e até mesmo desinteresse dos membros” (Azevedo, 1984, p. 5). A autora faz um chamado especial para a participação de colegas “para que a RBP possa continuar existindo, contribuindo de maneira eficaz para o intercâmbio de ideias, representando realmente o pensamento vivo e atual da Psicanálise no Brasil” (p. 6). Heitor Bandeira de Paola, no mesmo volume, afirma que nas sociedades brasileiras a prioridade tem sido formar analistas clínicos e que “a ânsia por novos conhecimentos, sem resposta nativa adequada, leva-nos a repetir o modelo da ‘importação de tecnologia’” (p. 265).

Bandeira de Paola também critica a adoção de uma postura nacionalista, tal como o respaldo à “psicanálise carioca ou brasileira”, de modo semelhante ao argumento apresentado por Azevedo (Azevedo et al., 2012). Entretanto, ele se ressente da falta de apreço pelos pensadores nacionais “os quais jamais contam com as plateias lotadas a altos preços dos visitantes de além-mar” (Paola, 1984, p. 265).

Na mesma edição da Revista, Doin levanta a questão de “por que tantos escrevem tão pouco? ”, e defende que existe um déficit nas habilidades científicas na sociedade, que é erroneamente tomado por uma ideia de que somente “uma análise pessoal bem-sucedida, por si só, nos faça pensar eficientemente, em matéria de ciência” (Doin, 1984, p. 10). Embora Doin (1984) pareça concordar que aspectos da vida dos psicanalistas poderiam afetar a produção científica, ele afirma não acreditar em uma correlação direta entre a análise pessoal e a proficiência científica. Para sanar esse problema, ele sugere medidas pragmáticas tais como o oferecimento de cursos sobre epistemologia e método científico, a criação de uma comissão sobre escrita científica, o desenvolvimento do conhecimento da língua inglesa e a garantia de um lugar seguro e agradável para apresentação pública de trabalhos.

Em um artigo, no qual psicanalistas da Sociedade de Psicanálise de São Paulo não só discutiram o tema do conflito geracional na sociedade em geral, mas também na instituição psicanalítica, eles propuseram a ideia de que um funcionamento primário da mente afeta a produção psicanalítica. De acordo com o seu argumento, conflitos arcaicos vividos com o grupo familiar são replicados nas instituições psicanalíticas, bloqueando assim a emergência de novas ideias e o progresso da psicanálise:

A angústia persecutória pode tornar-se tão intensa que bloqueia toda a capacidade criativa. Protela-se a apresentação de trabalhos, a capacidade de elaborá-los torna-se lenta, desvaloriza-se as próprias ideias e acaba-se canalizando-as num dos modelos teóricos já conhecidos, corroborando falsamente o conhecido, recorrendo-se a bibliografia, especialmente dos grandes mestres, como crianças tomadas por fantasias de castração e de idealização. (Szterling et at,, 1973, p. 332)

Ainda que essa leitura psicanalítica da situação não seja necessariamente equivocada, ela também não aponta para a racionalidade possível da instituição psicanalítica como um lugar em potencial para que esses conflitos edípicos arcaicos sejam reeditados ou um lugar onde a ansiedade persecutória pode ser exacerbada. No entanto, a leitura serve para revelar alguns dos elementos da concepção dos próprios psicanalistas sobre as suas dificuldades à época.

Por outro lado, a abertura ao exterior, de acordo com o modelo de “importação de tecnologia” era bastante ampla. Muitos de nossos entrevistados valorizaram a abertura das instituições psicanalíticas brasileiras a diversas tradições e autores, sempre estrangeiros: os ingleses, os franceses, argentinos, e alguns americanos aqui e ali. Isso é visto pelos entrevistados como uma característica positiva dos psicanalistas brasileiros – essa abertura a tudo o que vem do exterior, sempre facilitada pela proficiência em línguas estrangeiras pelas elites locais – à qual a maioria dos psicanalistas pertencem. De acordo com muitos entrevista- dos, isso marca um certo sincretismo que se tornou característico da psicanálise brasileira. O psicanalista C afirma:

Acredito que os brasileiros naquela época, mesmo naquela época, estavam abertos à produção não apenas dos psicanalistas britânicos, mas também oriunda da psicanálise francesa, eles estavam abertos a muitas visões distintas em psicanálise, mesmo em termos de cultura geral, em termos de romances que haviam sido lidos pelos brasileiros, eles possuíam uma experiência de uma ampla gama de autores. Não havia, eu acredito, preconceito no Brasil contra línguas diferentes, nacionalidades diferentes, estilos diferentes.

O psicanalista G, que realizou sua formação em São Paulo, propõe o modelo do sincretismo religioso para compreendermos a formação dos psicanalistas brasileiros:

A gente, latino-americanos, faz sincretismos religiosos, isto numa época era visto como uma mixórdia no rigor teórico de uma escola. Mas ao mesmo tempo no Brasil é comum a gente poder ler em inglês, francês e espanhol. O francês até pouco tempo não lia inglês, o inglês não lia francês, eram fechados em si. Será que esse sincretismo também não tem valor?

O psicanalista A sugere que a língua portuguesa é muito suscetível a termos importados de outros idiomas, e reflete sobre como isso moldou a psicanálise falada no Brasil:

Nós somos uma língua pouco culta em relação ao italiano, alemão ou o francês; embora tenha uma grande tradição, porque os países que falam [português] não têm posições hegemônicas no mundo cultural há mais de três séculos ou quatro séculos, teve no século XVI. Então, é uma língua que facilmente, aí sim, aplica-se à ideia de colonização, é colonizada. De uma forma que chega a ser transfigurada. A gente lê tradução, ensaios de colegas em português que parece francês. Ou então, inglês. Trabalhos de conteúdo irrepreensível, não estou me referindo a isto, que você lê nas revistas, e que denunciam a filiação não só a autores, Klein etc., mas à cultura da língua inglesa, uma forma da língua inglesa. […] Durante muito tempo na sociedade, é muito comum ainda hoje, dizer assim “você não realizou muito bem esse conceito”, “essa é uma psicanálise que não é real”, é o real real. Ou então quando traduzimos pulsão, isso eu sei que é polêmico, mas também a palavra pulsão, embora tenha sido agora dicionarizada, não é da nossa língua. Impulso sim, instinto sim.

Toda língua assimila termos de outras línguas, mas o psicanalista A aparentemente fala sobre a tendência – característica da cena psicanalítica brasileira – de não apenas importar tecnologia, mas de falar inglês ou francês em português, de afiliar-se a uma cultura estrangeira, abandonando assim o seu próprio vocabulário. Utilizando a metáfora religiosa para falar sobre a formação da identidade psicanalítica brasileira, o psicanalista H nos lembra do primeiro bispo do Brasil, Dom Pedro Fernandes Sardinha, que chegou a Salvador vindo de Portugal em 1551. Sua trajetória ficou marcada na história brasileira por ter sido, de acordo com alguns relatos controversos, devorado por índios Caetés, em um ritual antropofágico na orla do nordeste brasileiro, em 1556. A antropofagia era a prática, realizada por algumas tribos nativas, de devorar prisioneiros capturados durante guerras.

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Notas

Notas
1 Psicanalista e professora associada do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho da Universidade de São Paulo.
2 Professor e diretor do Programa de Mestrado em Estudos Psicanalíticos do Department of Psychosocial Studies, Birkbeck, University of London.
3 Psicóloga e doutoranda em psicologia social da Universidade de São Paulo.
4 Psicólogo e mestre em ciências pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.
5 Psicanálise e contexto social no Brasil: Fluxos transnacionais, impacto cultural e regime autoritário. Projeto FAPESP 2015/11244-3.
6 N. do E.: Este artigo foi posteriormente publicado em Calibán, RLP, Vol. 11, Nº 1, Ano 2013.
7 N. do E.: O Manifesto antropofágico pode ser lido em Calibán,RLP, Vol. 10, Nº 1, Ano 2012.
8 Uma análise das onze revistas existentes durante esse período mostra a predominância de “líderes” de cada movimento psicanalítico regional no Brasil. Os autores publicados mais frequentemente eram: Vírgina Leone Bicudo, Durval Marcondes, Humberto Haydt de Souza Mello, Armando Bianco Ferrari, Darcy de Mendonça Uchoa, Deocleciano B. Alves, Odilon de Mello Franco Filho, Jansy Berndt de Souza Mello e Laertes Moura Ferrão em São Paulo. Na Sociedade do Rio de Janeiro, Maria P. Manhães e, em Minas Gerais, Malomar Lund Edelweiss, Igor A. Caruso, Célio Garcia, Jarbas Moacir Portela e Victor Manoel Andrade.

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